Logo PUCP

Temas propostos: Sintaxe

A sintaxe interna do sintagma nominal

Como hipótese de trabalho consideramos estabelecida em uma língua a existência de um constituinte oracional denominado sintagma nominal (SN), manifestado por zero, um ou mais elementos. Aqui deixamos de lado a relativização (já tratada no encontro Amazonicas II), a morfologia nominal, e aquelas propriedades do SN que se depreendem de sua relação com os demais constituintes do âmbito em que ele aparece (posição, casos — exceto o genitivo —, coordenação, adposição, e sua manipulação pela estrutura informacional da oração). A constituição de um SN responde a duas necessidades: caracterizar um tipo de entidade (compreensão), e delimitar uma classe de referentes (extensão). Os instrumentos formais que cumprem estas duas funções podem especializar-se em uma delas ou cobrir ambas. Se olhamos os SN pelo lado formal, distinguimos o núcleo e seus dependentes. A natureza do núcleo condiciona a sintaxe interna do SN de duas maneiras. Primeiro, em termos teóricos, pelo fato da noção de núcleo funcional (determinante) sugerir um paralelismo estrutural entre o SN e a oração (hipótese X-barra completada pela do DP). Segundo, em termos da subclasse nominal que encabeça o SN. Esta chamada se concentra na idéia mais tradicional de núcleo lexical. Há dois tipos de núcleo lexical que, por carecerem de compreensão e por serem referencialmente unívocos, são propensos a formar um SN de um único elemento: o pronome e o nome próprio. Já os deverbais admitem dependentes, mas sofrem restrições de combinação com estes (por exemplo, a recuperação dos argumentos pode tomar conta da expressão do genitivo). A ausência de núcleo lexical ocorre de duas maneiras. Por um lado, o núcleo se elide, mas os dependentes permanecem (la Ø de enfrente). Esta interpretação encerra alguns problemas (lo mejor não é lo Ø mejor). Por outro, o SN é uma “relativa sem núcleo”, denominação freqüente, ainda que imprópria para as nominalizações de muitas línguas. Os dependentes dividem-se em argumentos e modificadores. Os argumentos lexicais são verdadeiros SN ([the king of England]‘s will), que levam ou não uma marca de dependência. Esta, alternativamente, aparece sobre o núcleo (la mesa su-pata em algumas variedades do espanhol amazônico). Quando há co-ocorrência entre a expressão lexical e a expressão pronominal (último exemplo) surge a questão de seu vínculo sintático mútuo (argumento lexical e concordância flexional versus argumento pronominal e adjunto lexical correferencial — uma faceta da não configuracionalidade). A existência de argumentos supõe estrutura argumental no núcleo e portanto valência. A forma da construção genitiva varia de acordo com a valência do núcleo, já que, por exemplo, um núcleo monovalente (“alienável”) gera as vezes uma configuração mais complexa que um bivalente (“inalienável”). O argumento pode também ter a forma de uma oração completiva finita (la sospecha de [que [nunca volvería]]). Há modificadores lexicais e gramaticais. Estes últimos, os determinantes, são, basicamente, os artigos e os demonstrativos. Levando em conta que: 1) muitas línguas carecem de artigos, enquanto outras têm apenas um (definido ou indefinido), e algumas dois ou mais (se há sincretismo de gênero e/ou número); 2) nem sempre artigo e demonstrativo formam juntos uma clase de substituição; 3) as definições do artigo são heterogéneas; marca de (in)definido versus morfema mais ou menos indispensável para que um nome instaure um SN; 4) é comum o vínculo diacrónico entre demonstrativo e artigo. Adjetivos (onde existem), advérbios (el paisano aquí), e SN não argumentais (tea for two) são os modificadores lexicais comuns. Os adjuntos nominais não necessariamente levam adposição (Dixieland rock) e a marca de genitivo serve tanto para expressar argumentos (interiorval2 do corpoargm) como adjuntos (estradaval1 de terraadjn). O adjetivo pode instituir um sintagma e até mesmo reger caso (indiferente ao sentimento, livre de obstáculos). Vários recursos expressam o estreito vínculo entre os componentes do SN: concordância entre núcleo e modificadores (por exemplo gênero, número, caso), restrições sobre ordem (maiores do que na oração) e sobre compatibilidade, sincretismos (por exemplo, no artigo), e marcas de adjacência imediata (“linkers”). Particular atenção nas línguas que nos interessam aqui deve ser dada à ordem entre núcleo e modificador quando este é um nome. A ocorrência de AB e BA não indica necessariamente indiferença à ordem mesmo que um pareça descrever uma entidade e o outro uma propriedade (male chimpanzee / chimpanzee male). Uma nítida falta de coesão do SN seria outra característica das línguas não-configuracionais, embora exista a possibilidade de que os supostos SN discontínuos sejam apenas cadeias correferenciais com modificadores do núcleo autonomizados em SNs mediante algum mecanismo de nominalização (comum na Austrália). (Outra coisa é a extraposição de relativas como em algumas línguas européias). Ao adentrarmos o SN pelo lado funcional, deparamo-nos com três vertentes: semântica (caracterização da entidade), extensional (identificação do referente) e, ainda que menos óbvia, pragmática (estratégias do falante). A expressão da primeira está a cargo dos adjetivos (onde houver, não sobra insistir) (discours frivole) e nomes (papier toilette), com clara tendência destes para a lexicalização. Ao redor da posse estão o significado altamente diversificado do genitivo e o correlato semântico da valência do núcleo: a posse alienável/inalienável com seus limites flutuantes de uma língua a outra. A quantificação é complexa pois abarca, junto com o número propriamente dito (singular/dual/trial/paucal/ plural/total) e o distributivo, a subclassificação dos nomes a partir das propiedades quantificacionais da entidade (individual, genérica, coletiva, densa, discreta), e as ferramentas gramaticais necessárias para passar de um tipo a outro de categoria (por exemplo, o singulativo). O comportamento dos numerais cardinais e ordinais muitas vezes levanta dúvidas sobre se seu status dentro dos SNs é o de modificador ou o de núcleo, sobretudo quando vêm acompanhados de classificadores. Nesta rúbrica temos também a intensificação (aumentativo, diminutivo) e a quantificação de modificadores (a mais profunda emoção). As categorias de gênero e classe, que têm semântica afim, merecem denominações diferentes (gênero, classes nominais, classificadores nominais) com base na sua extensão no léxico e na forma em que se manifestam. Merecem atenção sua (in)compatibilidade mútua em uma mesma língua, bem como a natureza parasítica da classificação em si: classificar serve, antes de tudo, para os fins gramaticais de garantir a coesão do SN (concordância), rastrear a referência (idem), aumentar a valência de nomes monovalentes (“classificadores genitivos”) e quantificar (singularização/discretização com os classificadores “numerais”). A extensão ou referencialidade faz uso de modificadores lexicais (alguns adjetivos, advérbios de localização, genitivo definido — silueta de mujer / silueta de Juana) e principalmente determinantes. As línguas diferem com respeito ao campo de aplicação do artigo definido: se é somente discursivo (foricidade) ou também situacional. Os demonstrativos apresentam paradigmas variáveis de acordo com as dimensões dêiticas de pessoa e espaço (às vezes tempo). O interior do SN está pouco exposto a pressões pragmáticas (o que explica sua ordem mais rígida) sem chegar a ser hermético. Além do (in)definido (cômputo do falante sobre o que o ouvinte pode ter em mente), há lugar para o ângulo de enfoque (Ana chegou às três da manhã / Tua filha chegou…), a evidencialidade e a modalização que a acompanha (se invitó al dizque gran profesor), a hierarquização discursiva de duas (ou até três) terceiras pessoas (proximal / obviativo), e, naturalmente, o conjunto nocional composto por honoríficos e hipocorísticos. No leque de temas proposto acima, os participantes poderão escolher um aspecto interessante da língua estudada a ser apresentado no encontro.

Coordinator:

Francesc Queixalós

Keynote speakers:

Masayoshi Shibatani (Rice University)
Lisa Matthewson (University of British Columbia)
Henry Davis (University of British Columbia)

Auspicia: